Mesa Tatami

Objetos
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Autor Bruno Campos
Ano 2000

A Mesa Tatami começou a ser pensada em 2000, durante minha temporada no escritório de Marion Weiss e Michael Manfredi em Nova York. Na ocasião eu estava trabalhando em um projeto de remodelação da Universidade de Columbia, tentando dar uma solução para um pequeno espaço multiuso que seria usado para reuniões e para eventos e, portanto, necessitava de móveis facilmente removíveis e guardáveis.

Inicialmente eu pensei ingenuamente numa mesa que pudesse ser executada em metal, cortada a partir de uma única lâmina de ferro ao melhor estilo Franz Weissman, ou Amílcar de Castro, num único gesto, aquelas coisas. No desenvolvimento do detalhamento ela acabou se aproximando mais dos móveis de escritório que Jean Nouvel desenhou para a fundação Cartier, com seu complicadíssimo sistema estrutural ‘não revelado’ por baixo do tampo liso e de espessura mínima. A ‘leveza’ da visão da chapa autoportante era conseguida a muito custo e peso, literalmente, e a homogeneidade conceitual do primeiro desenho foi completamente comprometida pelos encaixes, dobradiças, estruturas secundárias e verdadeiras gambiarras escondidas_ e a solução acabou abortada.

Apesar do entusiasmo com a minha idéia original, e a dedicação para tornar a mesa viável, levei ´bomba´ ao apresentar o projeto em uma reunião interna da Weiss/Manfredi. Marion e Michael me elogiaram e agradeceram muito pelo esforço, mas pediram educadamente para que eu esquecesse o assunto e partisse para uma outra idéia, que deixasse a ‘Tatami-Table’, como eu a havia batizado, para uma próxima ocasião.

Foi o que eu fiz. Assim que voltei para o Brasil retomei a idéia, que acabou evoluindo do metal (uma solução pesada que parecia leve) para a madeira (uma solução leve que parece pesada). Coincidentemente ou não, essa mudança de país e de paradigma fez com que a mesa se viabilizasse como num passe de mágica: dos U$ 9.000,00 de NY[1] para os U$ 500,00 de BH_ dois protótipos (um na minha casa e outro no meu escritório) e quatro anos depois.

A mesa tem as proporções de um Tatami: seis pés de comprimento por três pés de largura: dezoito pés quadrados. O submúltiplo de módulo básico é um quadrado de três polegadas de lado, que determina a seção do pé da mesa, a sua altura (30 polegadas de comprimento) e a espessura do tampo (3 polegadas).[2]

A partir desse retângulo teórico temos um plano maciço a partir do qual são feitos os cortes que determinam a geometria da Mesa-Tatami. Os pés da mesa são cortados da superfície do Tatami em uma simetria diagonal e em seguida girados noventa graus, gerando um tampo de mesa irregular.

Essa operação de corte e dobra gera uma impressão de solidez e homogeneidade do conjunto, que é reforçada ainda pela ausência de juntas e conexões aparentes_ objetivos que sempre guiaram o conceito, o detalhamento e a fabricação do objeto. A superfície do tampo é construída como se fosse uma porta prancheta, basicamente uma caixa de compensado revestida de folheado de madeira nas quatro faces e estruturada internamente por sarrafos espaçados a cada 10 polegadas. Já os pés da mesa são peças maciças que se fixam na estrutura do tampo por meio de um parafuso rosqueado e à medida que giramos as peças elas vão se apertando cada vez mais na rosca do tampo, funcionando como verdadeiros parafusos gigantes, até o momento que os pés atingem a rigidez necessária na posição vertical (depois de duas voltas). Para finalizar, uma pequena e discreta esfera de pressão (na base do pé e na lateral do tampo) fazem o travamento de volta do tatami na posição horizontal.

O conjunto acaba sendo bem mais leve do que pode parecer a primeira vista, e o fácil transporte e a fácil estocagem da mesa-tatami é basicamente o que motivou o seu desenho simples e inusitado, desde o princípio.


[1] “Bruno has expensive taste…”, costumavam dizer.[2] O sistema de pés e polegadas deve ser um tributo inconsciente da origem da mesa, mas no detalhamento as medidas tiveram que ser adaptadas para o sistema métrico, perdendo um pouco da ‘pureza’ desses números redondinhos.